sexta-feira, 13 de abril de 2012

A linguagem da ARTE


No principio dos tempos minúsculos grãos de todos os seres rodopiavam no espaço entre o céu e as estrelas à procurar de um lugar para germinar. Chegaram ao Sol, mas o Sol, muito ardente, não era um bom lugar. Rodopiaram até a Lua; e ela, sempre inconstante, ora minguante, ora crescente, ora cheia, também não era um bom lugar para germinar. Então avistaram a mãe Terra e lá desceram. Mas a mãe Terra estava coberta de água. Soprados pelo ar os grãos voaram em busca de terra seca. Nas lufadas do vento, rodopiaram de norte a sul, de leste a oeste, e nada acharam. De repente... catapum pum pum... apareceu uma grande pedra queimando no meio da água. Era tanta a sua queimação que no fogo as águas ferviam e subiam ao ar em nuvens. Foi então que a terra seca e boa apareceu e no ventre da mãe Terra finalmente germinaram os minúsculos grãos de todos os seres.
Cada qual escolheu um lugar. Os mares dançaram rolando em ondas imensas, os rios desenharam seus cursos de água e as montanhas esculpiram seus contornos erguendo-se em picos. Na terra fresca e fofa as plantas cresceram, coloridas flores brotaram e doces e suculentos frutos amadureceram. O canto das aves ecoou no eco das matas e os cardumes de peixes bailaram no vaivém da correnteza das águas. Bichos grandes e pequenos, cada um a seu jeito, a mãe Terra habitou. O mundo estava pronto. Mundo que girava no Universo com seus enigmas, movido pelas determinações naturais daquelas muitas formas de ser que ali habitavam. O mundo era morada da natureza.
Entretanto, faltava ainda alguém. Um ser capaz de perguntar sobre o seu lugar na natureza e no cosmo. Alguém capaz de refletir sobre os muitos mistérios daquele mundo. Mas alguém que também fosse capaz de chorar e sorrir, de temer e ousar, de odiar e amar, de perdoar e esquecer, de lembrar e desejar, de criar… Alguém capaz de expressar-se sobre si mesmo e seus semelhantes, sobre o mundo e as coisas do mundo. Ai, então, o mundo estaria completo! Seria ele habitado com alma.
No mundo faltava o homem.
Foi no decorrer de muitos, muitos mil anos, osso por osso, músculo por músculo, nervo por nervo, artéria por artéria e mutação do cérebro nas longas horas do trabalho paciencioso, seja pelas mãos divinas, seja pela mudança das linhagens, que o homem se formou. Não conhecia seu lugar naquele mundo, tinha de encontrá-lo.
Ao contrario dos outros seres, o homem teve de aprender muito. Às vezes era arrogante e tinha de aprender a humildade, às vezes era covarde e era preciso aprender a ser valente. Algumas vezes sofria porque não entendia os enigmas na mãe Terra. Outras vezes sofria porque na entendia a alma dos seus semelhantes. Mas para suportar tudo isso e tornar-se melhor pela sua própria sabedoria, o homem inventou uma ferramenta, a linguagem. Linguagens que se tornaram inseparáveis do homem para ele penetrar na floresta sombria das coisas do mundo e desvelar para si bosques de realidade, desvelo da consciência de viver e existir. Linguagens inventoras de mundos do brincante homem criador de signos.
Dentre elas uma linguagem se fez especial, a linguagem da ARTE. Feita para o homem mergulhar dentro de si mesmo, trazendo para fora e para dentro dos outros homens as emoções do próprio homem. Sabe o homem que as emoções é que são o sal da vida. Por isso é que quando um homem quer falar ao coração dos outros homens ele o faz pela linguagem da arte. Quando isso acontece, naquele homem sente e age o artista.
(texto extraído do livro: Didática do Ensino de Arte, A língua do mundo, Poetizar, fruir e conhecer arte – MARTINS, Miriam Celeste, PICOSQUE, Gisa e GUERRA, M. Terezinha Telles)

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