domingo, 19 de setembro de 2010

A DIFERENÇA ENTRE O BELO E O BONITO

Tenho uma lembrança muito viva na memória. Foi na década de 1960 quando meu pai lia uma reportagem sobre a truculenta guerra do Vietnã – que aconteceu na Ásia e teve repercussão mundial. O Vietnã, antiga colônia francesa, foi dividido em duas nações, uma ao sul, capitalista, e outra ao norte, comunista. O Vietnã do Norte, apoiado pela então União Soviética, lutava pela reunificação do país, enquanto o sul, ajudado pelos Estados Unidos, a ela se opunha. Esse conflito despertava paixões e discussões acaloradas, tanto pelo confronto das propostas políticas como pela diferença de condições militares entre os países envolvidos: de um lado, a flagrante superioridade bélica norte-americana e, de outro, a heróica resistência da ex-colônia.
         Como dizia, meu pai lia uma dessas reportagens que denunciavam ao resto do mundo a crueldade do conflito, quando o ouvi exclamar: “Que bela fotografia!”. Eu era ainda muito jovem e, tendo ficado impressionada com a admiração que ele demonstrava, fui correndo ver a cena fotografada. A foto mostrava uma trincheira, no meio de uma mata rala, onde se escondia um guerrilheiro de cerca de quinze anos. Era uma figura encolhida e tensa que olhava temerosa para fora do esconderijo, como se tentasse escapar de uma perseguição.
         A trincheira em que se escondia era protegida por alguns arames entrelaçados e galhos de arvores. A cena passava para o observador uma sensação de solidão e fragilidade. Não era uma impre4ssao agradável o que ela despertava.
         Naquele momento não entendi como meu pai podia achar bela uma fotografia de um adolescente, sozinho numa mata, em meio a uma guerra, assustado, e, talvez, perto da morte. Retruquei, dizendo que aquela imagem não era bonita, que o guerrilheiro aparecia sujo, encolhido e feio. Meu pai me explicou, então, a diferença entre o belo e bonito. Ele me fez compreender que a beleza vem da emoção que temos diante de uma obra de arte quando percebemos o que o artista tenta transmitir. A beleza vem também da sensação de conseguirmos ver o mundo da maneira que pensamos ter sido a intenção do artista. O belo se constitui, assim, tanto por uma emoção despertada como por sua correspondência com uma idéia transmitida.
         Foi então que pude entender como uma marcha fúnebre pode ser bela, apesar de triste. Porque a beleza emociona, e o mundo da arte, como o mundo real que lhe serve de inspiração, tem aspectos agradáveis e alegres, assim como desagradáveis e tristes. Todos eles, pela sua força, inspiram o artista na longa discussão que ele trava conosco acerca da vida.

A ESTETICA CLÁSSICA E A POPULARIZAÇÃO DO BONITO

         E de onde veio essa idéia de “boniteza”, relacionada como o alegre, o agradável, o saudável, que me fizera pensar que uma fotografia de um jovem fraco e amedrontado não poderia ser bela? Bem, isso teve origem na Grécia, na Antiguidade Clássica, mais ou menos no século V a.C., quando Atenas era uma cidade importantíssima. Arte que lá se fazia pretendia expressar um ideal de beleza e vida por meio de composições nas quais predominassem a harmonia, a simetria, o equilíbrio e a proporcionalidade. Foi essa arte que inspirou vários movimentos artísticos desde o Renascimento ate a Idade Moderna. Por ser considerada um modelo, essa arte – com seus critérios e princípios – foi chamada de clássica e, pela importância que teve, acabou disseminando pelo mundo seu ideal de beleza, que passou a ser visto como universal. Assim, muitas pessoas passaram a julgar belas apenas as manifestações artísticas agradáveis, harmoniosas e que mostram o mundo não como ele é, mas como deveria ser.
         Daí a se confundir beleza com critérios de aparência, com proporcionalidade de medidas e com equilíbrio de formas foi um passo. E, assim, passamos a misturar prazer estético – que, como vimos, é uma emoção profunda e sutil – com o prazer de olhar ou ouvir formas e composições agradáveis. Essas idéias tiveram muito sucesso, popularizaram-se e, ate hoje, muita gente pensa que o belo deve necessariamente ser harmoniosa, agradável, saudável e alegre.

(Texto extraído do livro: Questões de Arte de Cristina Costa páginas 29 e 30)

Nenhum comentário: