sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

GENTILEZA: UMA ARTE NECESSÁRIA

Tratar os outros como gostaríamos de ser tratados: o que sempre foi um principio básico da convivência corre o risco de se tornar uma prática tão ultrapassada quanto dançar o minueto, convocar um desafeto para um duelo ou bordar o próprio enxoval. Andamos tão desatentos uns com os outros que os comportamentos gentis, que deveriam ser a regra, estão virando exceção. O consultor Max Gehringer diz que hoje nós saímos de casa mais preparados para um assalto do que para um sorriso. Em um mundo onde se trata bem só a quem interessa, alguém que nos sorri gratuitamente desperta nossa desconfiança.
Celulares que tocam em cinemas, salas de aula e velórios, festas que atravessam a madrugada e acordam os vizinhos, agressividade no trânsito, a incapacidade de dizer "bom dia" ao colega do trabalho ou de agradecer um favor, a desenvoltura para furar a fila do banco: os exemplos de falta de gentileza são infinitos e, o que é pior, estamos nos acostumando a eles como se fossem inevitáveis. No mundo do estresse, muitos acham que ser mal-educados não é tão grave assim. "O estresse virou a desculpa universal para os comportamentos indesculpáveis", afirma P. M. Forni, da Universidade Johns Hopkins, que entrevistei nos Estados Unidos.
Professor de Literatura, ele criou na universidade um núcleo de pesquisa e ensino voltado para a civilidade e seu papel na sociedade contemporânea. P. M. Forni argumenta que gentileza é qualidade de vida e explica por quê: segundo ele, viver é conviver - nós interagimos uns com os outros o tempo todo -, e a qualidade da nossa convivência com as pessoas define, em grande medida, a qualidade de nossas vidas. Ela é tão importante quanto nossas horas de sono, nossas caminhadas, nossa alimentação. Por isso, saber se relacionar é fundamental. Quando aprendemos a nos colocar no lugar do outro e a tratá-lo com delicadeza e consideração, a possibilidade de termos relacionamentos de qualidade aumenta. Com isso, também cresce nossa qualidade de vida.
P. M. Forni cita dados curiosos de duas pesquisas. O primeiro é que funcionários tratados de forma injusta e grosseiro por seus chefes têm 30% mais de chance de contrair doenças cardiovasculares. O segundo é que, nos CTI's de hospitais onde impera a cultura da falta de educação, as taxas de mortalidade são mais altas. Ou seja, quando falamos em gentileza, estamos falando de algo que pode afetar inclusive nossa saúde - física e emocional. "São as águas da delicadeza/ que movem o mundo", diz um poema de Roseana Murray. Ser gentil, em ultima instância, é tornar o mundo mais habitável. com isso, claro, saimos todos ganhando.

Leila Ferreira - Jornalista - Revista Linha Direta pg 82

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