terça-feira, 7 de dezembro de 2010

MOINHO DE SONHOS

A mulher e o menino iam montados no cavalo; o homem ia ao lado, a pé. Andavam sem rumo havia semanas, até que deram numa aldeia à beira de um rio, onde as oliveiras vicejavam.
Fizeram uma pausa e, como a gente ali era hospitaleira e a oferta de serviço abundante, resolveram ficar. O homem arranjou emprego num moinho próximo à aldeia. A mulher se juntou a outras que colhiam azeitonas em terras ao redor de um castelo. Levou consigo o menino que, no meio do caminho, achou um velho cabo de vassoura e fez dela seu cavalo. Deu-lhe o nome de Rocinante.
Ao chagar aos olivais, o pequeno encontrou o filho de outra colhedeira - um garoto que se exibia com um escudo e uma espada de pau.
Os dois se observaram à distancia. Cada um se manteve junto à sua mãe, sem saber como se libertar dela. Vigiavam-se. Era preciso coragem para se acercar. Mas meninos são assim: se há abismos, inventam pontes.
De súbito, estavam frente à frente. Puseram-se a conversar, embora um e outro continuassem na sua. Logo esse já sabia o nome daquele: o menino recém-chegado se chamava Alonso; o outro, Sancho.
Começaram a se misturar:
_Deixa eu brincar com seu cavalo?, pediu Sancho.
_Só se você me emprestar sua espada, respondeu Alonso.
Iam se entendendo, apesar de assustados com a felicidade da nova companhia.
Avançaram na entrega:
_Tá vendo aquele moinho gigante?, apontou Alonso. Meu pai sozinho é que faz ele girar.
_Seu pai deve ter braços enormes, disse Sancho.
_Tem! Mas nem precisava, respondeu Alonso. Ele move o moinho com um sopro.
Sancho achou graça. Também tinha uma proeza a contar:
_Tá vendo o castelo, ali?, apontou. Meu pai disse que o dono tem tanta terra que o céu não dá para cobrir ela toda.
_E se a gente esticasse o céu como uma lona e cobrisse o que está faltando?, propôs Alonso.
_Seria legal, disse Sancho. Mas ia dar um trabalhão.
_Temos de crescer primeiro.
_Bom, enquanto a gente cresce, vamos pensar num jeito de subir até o céu! - disse Alonso.
_Vamos!, concordou Sancho.
Sentaram-se na relva. O cavalo, a espada e o escudo entre os dois. Um sopro de vento passou por eles.
Já eram amigos: moviam juntos o mesmo sonho.

João Anzanello Carrascoza, autor deste conto, é publicitário, professor da Universidade de São Paulo (USP) e autor de livros infantis, entre eles, Aprendiz de Inventor (Ed. Ática).

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