sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

APRENDIZAGEM

_ Mãe, cabelo demora quanto tempo pra crescer?
_ Hã?
_ Se eu cortar meu cabelo hoje, quando é que ele vai crescer de novo?
_ Cabelo está sempre crescendo, Beatriz. É que nem unha.
A comparação deixa a menina meio confusa. Ela não está preocupada com unhas.
_ Todo dia, mãe?
_ É, só que a gente não repara.
_ Por quê?
_ Porque as pessoas têm mais o que fazer, não acha?
A menina não sabe se essa é uma pergunta do tipo que precisa ser respondida ou é daquelas que a gente ouve e pronto. Prefere não responder.
_ Você é muito ocupada, não é, mãe?
_ Hã?
_ Nada, não.
A mãe termina de passar a roupa e vai guardando tudo no armário.
Enquanto isso, Beatriz corre até o quartinho de costura, pega a fita métrica e mede novamente o cabelo da boneca. Ela tinha cortado aquele cabelo com todo cuidado do mundo pra ficar parecido com o da mãe, mas a verdade é que ficou meio torto.
"Nada, não cresceu nada", ela conclui, guardando a fita. E já tem uma semana!
Depois volta para onde está a mãe, que agora lustra os móveis.
_ Mãe, existe alguma doença que faz o cabelo da gente não crescer?
_ Mas de novo essa conversa de cabelo! Não tem outra coisa pra pensar não, criatura?
Sobre essa pergunta não há dúvida: é do tipo que você não deve responder.
A mãe continua trabalhando. Precisa se apressar. Dali a pouco a patroa chaga da rua e o almoço nem está pronto ainda.
_ Mãe!
_ O que foi?
_ É que eu estava aqui pensando.
_ Pensando o quê?
Beatriz não responde. Espera um pouco, tentando achar as palavras certas.
_ Vai, fala logo.
_ Quando a gente faz uma coisa, sabe, e não dá mais pra voltar atrás, entendeu?
_ Não, não entendi.
Ela abaixa a cabeça, dá um tempinho e resolve arriscar:
_ Então, se você não entendeu, posso continuar perguntando sobre cabelo?
_ Ai, meu Deus!
Beatriz deixa a mãe trabalhando e vai procurar de novo sua boneca.
Pega a boneca no colo e diz no ouvido dela:
_ Não liga, não. Cabelo de boneca é assim mesmo, cresce devagar, viu?
E com um carinho:
_ Foi minha mãe que me ensinou.

FLÁVIO CARNEIRO, autor deste conto, é roteirista, ensaísta e professor de Literatura. Tem 11 livros publicados, entre eles, A Distância das Coisas (Ed. SM), vencedor do III Prêmio Barco a Vapor. Conheça mais seu trabalho em www.flaviocarneiro.com.br.

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