quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

CASA DE VÔ

Todo avô toma remédio, usa dentadura e tira soneca depois do almoço. O meu, não.
Não toma pílula nem xarope. E, à tarde, fica acordado, brincando comigo. Dentadura? Isso ele usa. Mas, de resto, é diferente.
Minha avó também não é igual às outras. Enquanto toda avó borda e faz bolo de chocolate, ela só costura para fazer remendos nas roupas e só cozinha no fim de semana. E quase nunca está em casa. De calça comprida (enquanto todas as avós do mundo usam saia), sai cedinho para trabalhar e nos deixa sozinhos.
Daí, o guarda-roupa dela vira elevador. Basta eu entrar e me sentar nas caixas de sapatos para vovô encostar as portas e, como ascensorista, anunciar:
_ Primeiro andar! Roupas e bonecas. Segundo andar! Balas de goma, móveis e crianças perdidas...
A parede da sala é transformada em galeria de arte com pinturas emolduradas em fita crepe e, o tapete, em tablado de exposição de botões raros, que jamais combinariam com qualquer roupa normal.
Ao cair da tarde, na garagem vazia, enquanto o papagaio e os cachorros conversam misturando latidos, uivos e risadas, ele espalha alguns pedacinhos de papel pelo chão. É a brincadeira do Pisei.
_ Hã? Como assim?, pergunto. Essa é nova.
Vovô explica sua invenção:
_ Memorize onde estão os papéis. Feche os olhos e comece a caminhar. Tente pisar em cima deles. Pode ir perguntando "Pisei?" para facilitar. Ganha o jogo quem pisar em mais pedaços.
Eu começo.
_ Pisei?, pergunto, dando o primeiro passo, apertando os olhos.
_ Não!
_ Pisei?, insisto mais uma vez, depois de caminhar um tiquinho.
_ Não!
Ouço um barulho de chaves. Vovó chega, cansada, do trabalho. Diz "Oi". Sei que é para mim, mas não posso abrir os olhos para responder. É quebra de regra.
_ Tudo bem, vó? Quer brincar de Pisei?, convido.
_ Agora, não, minha riqueza. Vovó vai descansar.
Vovô continua a me guiar, já sentado na cadeira de praia, lendo o jornal. Não vi, mas escutei o barulho dela sendo armada e das folhas nas mãos dele.
Sigo.
_ Pisei?
_ Pisei?
_ Pisei?
E nada.
Sinto meus pés tropeçarem em algo. Abro os olhos.
Vovô, à minha frente, de braços abertos, pronto para um abraço de vitória.
_ Mas eu não pisei em nenhum papelzinho, vô, digo, meio desanimada, mas, já engalfinhada e feliz nos braços dele.
_ O vento foi levando tudo para o cantinho do portão, ele explica, sorrindo.
_ E por que o senhor não me avisou? A gente poderia ter colado os pedacinhos no chão e recomeçado...
_ Porque eu queria que a brincadeira terminasse com você perto de mim.

BEATRIZ VICHESSI, autora deste conto é editora da NOVA ESCOLA.

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